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 AS PALAVRAS TÊM MUITA FORÇA
O Socialista

 

    

Durante a sua juventude Marco pregou a toda a gente a doutrina socialista da mudança revolucionária e da destruição do capital para permitir a libertação dos trabalhadores.                                  

Os governos foram-se sucedendo, cada qual com as suas medidas que nada mais faziam do que agravar a situação de vida da população. Aquele socialista foi ganhando prestígio e ascensão no seu partido, tendo chegado a vice-presidente do partido.

A população cansou-se de ser castigada pelos governos liberais, tendo por isso votado em massa naquele partido, outrora rejeitado e até ridicularizado por muitos. O líder daquele partido e Marco prometiam todos os dias à população nunca traírem os trabalhadores e deixarem-se vencer pelos aliciamentos e demagogias fáceis dos capitalistas.

 A vitória foi esclarecedora, o que obrigou os velhos senhores do poder: gordos, carnudos, arrogantes e insensíveis a fugir para muito longe, não fosse o PST mandá-los prender ou reter-lhe parte dos bens para distribuir pelos pobres ou para enriquecer o património do Estado.

O  líder do PST, Vasco, foi empossado como primeiro-ministro e Marco como ministro da economia prometendo fazer as reformas económicas capazes de mudar o nível de vida da população e uma justa repartição da riqueza produzida.

 Já lá ia um ano, quando o primeiro capitalista conseguiu falar com o ministro da economia, facto que fazia todos os dias com os governos anteriores para os pressionar a dar-lhe privilégios, retirando o pão da boca das crianças, dos desempregados e dos idosos.

Então o que o traz por cá? Perguntou o ministro da economia a sorrir. Uma proposta irrecusável para o bem de todos. Um empreendimento que irá trazer muita riqueza para o nosso país. Será? Duvidou o governante. Sim, sim. Uma central nuclear não fará a diferença?! O governante levantou-se de imediato da cadeira e começou a soltar as suas frases antigas. Nós não nos vendemos, muito menos para construir uma obra dessas. O senhor quer  colocar em risco permanente a vida de tantas pessoas? Em nome de quê? Em nome do  desenvolvimento e do lucro fácil? Quer estragar a nossa qualidade de vida? Quer que mais uns milhares de pessoas emigrem?

Tenha calma, tenha calma! Uma central nuclear nos dias de hoje é feita com segurança e dá muito emprego e dinheiro. Já reparou que escusa de comprar electricidade ao estrangeiro. Já viu quantos milhões entrarão nos cofres do Estado todos os anos em impostos? Já pensou que irá criar dinamismo económico. Mesmo que morram dez ou quinze, iremos ter desenvolvimento. É preciso algum cuidado com este tipo de investimentos. Disse calmamente o ministro já sentado.

Olhe! Senhor ministro, fazemos o seguinte. O senhor assina isso, dizendo que é um investimento fundamental para a criação de emprego e para gerar riqueza e eu deixo-lhe aqui uma proposta que lhe irá permitir ficar com uma casa de praia a poucos metros da praia da nudez. É um sítio muito apetecido, tenho ganho lá muito dinheiro, porque as pessoas arrendam aquilo a peso de ouro só por estarem perto da praia.

Deixe estar pode levar. Olhe fica aqui na mesa ao lado, caso se decida assinar o projeto e lhe dê seguimento, terá a casa em seu nome e tudo no segredo dos deuses. Fica ali. Até um dia destes.

Os assuntos eram muitos e, tal como nos dias anteriores, antes das oito nunca conseguia abandonar o seu gabinete, por isso, continuou a trabalhar e ignorou a preciosa oferta que estava na mesa ao lado. A sua mulher sempre quis uma casa de praia, mas Marco sempre recusou, alegando que isso era coisas de capitalistas e meninos bem da sociedade, preferindo ir a praias modestas no seu simples carros ou em transportes públicos. 

Enquanto ia trabalhando ainda ia pensando na proposta, por um lado era tentadora, por outro ia contra ao que sempre defendeu, pelo que continuou a trabalhar. Alguns assessores e seguranças ainda repararam na presença daquele capitalista, mas não deram grande importância, tal como não deram ao envelope A4 que estava na secretária ao lado do ministro.

Cerca das oito horas, já estava sozinho do gabinete, pensou terminar o seu trabalho para aquele dia. Arrumou as papeladas, desligou o seu computador, levantou-se da cadeira e começou a caminhar para a mesa onde se encontrava a tentadora proposta. Hesitou, pensou, reflectiu, mas  a tentação de poder vir a ter uma  vivenda junto à praia ia-o fascinando. Cada vez pensava menos no que sempre defendeu e mais nos bons momentos que poderia vir a passar no futuro na sua casa de praia.

Em casa a mulher achou bem, porque foi o que sempre quis, mas tambémlhe disse,  eu não te disse que um dia te venderias ao capital.

A partir daquele Verão o Marco, ministro da economia durante alguns anos, começou a ir passar as férias na sua vivenda da praia da Nudez e o empresário construiu um império por causa do negócio chorudo da sua central nuclear. Os trabalhadores continuaram explorados, pobres, injustiçados e ignorados como sempre.

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